Pular para o conteúdo

Insuficiência cardíaca:

Você conhece as melhores formas de cuidado?

A insuficiência cardíaca é uma condição em que o coração apresenta dificuldade para bombear o sangue de maneira adequada às necessidades do organismo ou só consegue fazê-lo sob pressões elevadas. Embora o nome possa assustar, receber esse diagnóstico não significa que o coração simplesmente “parou de funcionar”. Com acompanhamento adequado, mudanças no estilo de vida e tratamentos modernos, muitas pessoas conseguem controlar os sintomas, reduzir internações e preservar a qualidade de vida.

O cuidado, porém, precisa ser contínuo. A insuficiência cardíaca pode apresentar períodos de estabilidade e momentos de piora, conhecidos como descompensações. Por isso, reconhecer mudanças no organismo, tomar corretamente os medicamentos e manter consultas regulares são atitudes tão importantes quanto o próprio tratamento prescrito.

As recomendações atuais também destacam a importância de um atendimento multidisciplinar, envolvendo cardiologista e, conforme a necessidade, profissionais como enfermeiro, nutricionista, fisioterapeuta, farmacêutico e outros especialistas.

O que é insuficiência cardíaca e por que ela exige cuidados contínuos?

A insuficiência cardíaca não é uma doença única, mas uma síndrome que pode surgir como consequência de diferentes problemas cardiovasculares. Hipertensão arterial de longa duração, doença das artérias coronárias, infarto do miocárdio, alterações das válvulas cardíacas, algumas arritmias e doenças do músculo do coração estão entre possíveis causas.

Um dos exames utilizados na investigação é o ecocardiograma, que permite avaliar a estrutura e o funcionamento do coração, incluindo a chamada fração de ejeção. Esse parâmetro ajuda os médicos a classificar a insuficiência cardíaca e escolher estratégias terapêuticas mais adequadas.

De maneira simplificada, existem pacientes com fração de ejeção reduzida, aqueles com valores intermediários e pessoas com fração de ejeção preservada. Essa diferença é importante porque determinados medicamentos apresentam evidências e indicações específicas para cada grupo.

Por isso, dois pacientes com insuficiência cardíaca podem receber tratamentos diferentes. Idade, pressão arterial, função dos rins, presença de diabetes, ritmo cardíaco, sintomas, exames laboratoriais e outras doenças também precisam ser considerados.

Quais são os principais sintomas da insuficiência cardíaca?

Os sintomas variam de pessoa para pessoa e podem surgir gradualmente. Um dos mais comuns é a falta de ar, inicialmente durante atividades como caminhar ou subir escadas. Em situações mais avançadas, o desconforto também pode aparecer em repouso ou ao se deitar.

Outros sinais que merecem atenção incluem:

  • cansaço excessivo ou redução da capacidade para realizar tarefas habituais;
  • inchaço nos pés, tornozelos, pernas ou abdômen;
  • ganho rápido de peso relacionado à retenção de líquidos;
  • necessidade de dormir com vários travesseiros por causa da falta de ar;
  • despertar durante a noite com dificuldade para respirar;
  • palpitações ou sensação de coração acelerado;
  • perda de apetite ou sensação de estômago cheio;
  • tonturas, fraqueza ou confusão, especialmente em quadros mais graves.

A American Heart Association recomenda que pacientes acompanhem possíveis mudanças em falta de ar, inchaço, peso, frequência cardíaca e outros sintomas definidos pela equipe responsável pelo tratamento.

Quando os sintomas precisam de avaliação urgente?

Nem toda mudança representa uma emergência, mas alguns sinais não devem ser ignorados. Falta de ar intensa ou súbita, dor ou pressão no peito, desmaio, confusão importante ou piora rápida do estado geral justificam avaliação médica imediata.

Também é importante comunicar à equipe de saúde qualquer aumento significativo e rápido do peso ou do inchaço. A retenção de líquido pode aparecer antes mesmo de a falta de ar ficar evidente.

Alguns planos de acompanhamento utilizam mudanças de aproximadamente 1 kg ou mais em um curto período como sinal de alerta, mas o limite adequado deve ser definido individualmente pelo profissional responsável. A American Heart Association, por exemplo, destaca que ganhos rápidos de peso podem sinalizar retenção de líquidos e recomenda que cada paciente saiba qual variação deve motivar contato com sua equipe.

Quais são as melhores formas de cuidado na insuficiência cardíaca?

O melhor controle da insuficiência cardíaca normalmente depende da combinação entre tratamento medicamentoso, autocuidado, acompanhamento profissional e tratamento das doenças que contribuíram para o problema cardíaco.

1. Usar os medicamentos exatamente como foram prescritos

A adesão ao tratamento é uma das medidas mais importantes. Medicamentos para insuficiência cardíaca não servem apenas para aliviar sintomas: algumas classes diminuem o risco de hospitalizações e podem aumentar a sobrevida em determinados grupos de pacientes.

Na insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, as recomendações contemporâneas destacam quatro grupos fundamentais de terapia medicamentosa:

  1. medicamentos que atuam no sistema renina-angiotensina, incluindo os inibidores de neprilisina e receptor da angiotensina (ARNI) ou, quando apropriado, IECA ou BRA;
  2. betabloqueadores com evidência específica para insuficiência cardíaca;
  3. antagonistas dos receptores mineralocorticoides;
  4. inibidores de SGLT2.

O consenso do American College of Cardiology de 2024 reforça, quando clinicamente possível, a introdução precoce das terapias fundamentais e posterior ajuste para as doses toleradas pelo paciente.

Já para pessoas com fração de ejeção levemente reduzida ou preservada, as estratégias variam. A atualização de 2023 da European Society of Cardiology ampliou a importância dos inibidores de SGLT2 nesses grupos, além do tratamento da congestão e das doenças associadas.

Isso não significa que todos devam usar os mesmos medicamentos. Nunca inicie, interrompa ou altere doses por conta própria. Pressão arterial, potássio, função renal e outras condições influenciam as escolhas terapêuticas.

2. Monitorar o peso e os sintomas todos os dias

O autocuidado na insuficiência cardíaca ajuda a identificar sinais de descompensação antes que se tornem graves.

Uma rotina simples pode incluir:

  • pesar-se preferencialmente no mesmo horário e em condições semelhantes;
  • observar inchaço nos pés e nas pernas;
  • perceber se atividades habituais estão causando mais cansaço;
  • acompanhar a presença de falta de ar durante o dia ou à noite;
  • anotar alterações para discutir nas consultas;
  • medir pressão arterial e frequência cardíaca quando essa orientação fizer parte do plano de cuidado.

Criar um registro diário pode ser especialmente útil para pacientes que já apresentaram episódios de retenção de líquidos ou internações anteriores.

3. Reduzir o excesso de sódio sem fazer restrições extremas por conta própria

O excesso de sódio pode favorecer a retenção de líquidos, motivo pelo qual a alimentação merece atenção. Entretanto, a necessidade de restrição e a intensidade dessa medida devem ser individualizadas.

Em vez de se concentrar apenas no saleiro, é importante observar alimentos industrializados que podem conter grandes quantidades de sódio, como embutidos, temperos prontos, salgadinhos, molhos, sopas instantâneas e determinados alimentos ultraprocessados.

Algumas estratégias úteis são cozinhar mais alimentos frescos, utilizar ervas e temperos naturais e comparar a quantidade de sódio apresentada nos rótulos.

Dietas excessivamente restritivas também podem ser problemáticas, sobretudo para idosos ou pacientes com baixo peso e risco de desnutrição. Por isso, o acompanhamento nutricional pode ser importante.

4. Conversar com o médico sobre a quantidade adequada de líquidos

É comum ouvir que toda pessoa com insuficiência cardíaca precisa beber pouquíssima água, mas essa orientação não é adequada para todos os casos.

Em determinadas situações, especialmente quando há congestão importante ou dificuldade para eliminar líquidos, a equipe médica pode recomendar uma restrição da ingestão de líquidos. Em outras, uma limitação rigorosa não é necessária.

A recomendação deve considerar medicamentos utilizados, função renal, quantidade de sódio no sangue, clima, nível de atividade física e gravidade da insuficiência cardíaca. A American Heart Association orienta que a quantidade diária de líquidos seja discutida individualmente com o profissional de saúde.

5. Manter atividade física de forma segura

Durante muito tempo, pacientes com doenças cardíacas eram orientados a evitar esforço. Hoje, sabe-se que pessoas clinicamente estáveis podem se beneficiar da atividade física regular, desde que recebam orientação adequada.

Exercícios podem contribuir para melhorar a capacidade funcional, força muscular, disposição e qualidade de vida. Caminhadas e programas estruturados de reabilitação cardiovascular podem fazer parte do cuidado.

A intensidade deve ser ajustada ao estado clínico. Pessoas que apresentam falta de ar em repouso, tonturas, dor no peito ou piora recente não devem aumentar o nível de atividade sem avaliação profissional.

6. Controlar outras doenças

Tratar apenas o coração pode não ser suficiente. Condições associadas influenciam diretamente a evolução da insuficiência cardíaca.

Entre elas estão:

Condição associada Por que merece atenção?
Hipertensão arterial A pressão elevada aumenta a sobrecarga sobre o coração.
Diabetes Está associado a maior risco cardiovascular e pode exigir medicamentos com benefícios cardíacos específicos.
Doença renal Pode interferir no equilíbrio de líquidos, eletrólitos e medicamentos.
Fibrilação atrial Pode piorar sintomas e aumentar o risco de complicações, incluindo AVC.
Deficiência de ferro Pode contribuir para cansaço e redução da capacidade para exercícios.
Doenças do sono Algumas alterações respiratórias durante o sono podem agravar problemas cardiovasculares.

Diretrizes internacionais recomendam uma abordagem que considere tanto as doenças cardiovasculares quanto condições como diabetes, doença renal, deficiência de ferro e distúrbios do sono.

Alimentação e hábitos: o que pode fazer diferença?

Além do controle de sódio, uma alimentação equilibrada deve oferecer nutrientes suficientes para preservar músculos e manter um peso adequado. Vegetais, frutas, leguminosas, cereais integrais e fontes apropriadas de proteína costumam integrar padrões alimentares favoráveis à saúde cardiovascular.

Outro aspecto importante é não fumar. O tabagismo aumenta o risco cardiovascular e prejudica a circulação e a oxigenação.

O consumo de álcool também merece avaliação individual. Dependendo da origem da cardiopatia e da condição clínica, o médico pode recomendar restrição ou abstinência.

Manter as vacinas recomendadas atualizadas é outra medida relevante. Infecções respiratórias podem representar uma sobrecarga importante para pessoas com insuficiência cardíaca. As recomendações cardiológicas destacam a prevenção por vacinação como parte do cuidado dos pacientes elegíveis.

Por que o acompanhamento médico regular é indispensável?

A insuficiência cardíaca pode mudar ao longo do tempo. Mesmo quando o paciente se sente bem, consultas periódicas permitem avaliar sintomas, pressão arterial, peso, exames laboratoriais, função renal e resposta aos medicamentos.

Durante o acompanhamento, pode ser necessário ajustar doses, solicitar novos exames ou investigar fatores que estejam provocando piora.

Também é fundamental levar para a consulta uma lista atualizada dos medicamentos, incluindo vitaminas, fitoterápicos e remédios utilizados sem receita. Alguns produtos podem provocar retenção de líquidos, alterações renais ou interferência no tratamento cardíaco.

Nunca interrompa um medicamento simplesmente porque os sintomas melhoraram. Muitas terapias continuam sendo necessárias justamente para ajudar a manter a doença controlada.

Insuficiência cardíaca pode melhorar?

Em alguns pacientes, o funcionamento do coração pode melhorar significativamente após o tratamento da causa e a otimização das terapias. Entretanto, melhora dos exames não significa necessariamente que a doença esteja definitivamente curada.

As diretrizes alertam que pacientes cuja fração de ejeção aumenta após tratamento podem ainda precisar manter terapias para reduzir o risco de recaída.

O objetivo do cuidado é combinar controle dos sintomas, prevenção de internações, redução de riscos e preservação da autonomia e da qualidade de vida.

Em casos avançados, equipes especializadas podem avaliar tratamentos adicionais, dispositivos cardíacos e, para pacientes selecionados, terapias avançadas. O cuidado também pode incluir suporte direcionado ao conforto, à qualidade de vida e às prioridades do próprio paciente.

Conclusão: cuidar da insuficiência cardíaca é um compromisso diário

Conviver com a insuficiência cardíaca exige atenção, mas os avanços no tratamento permitem um controle cada vez mais eficaz da condição. O cuidado ideal combina medicamentos baseados em evidências, acompanhamento periódico, alimentação equilibrada, atividade física segura, monitoramento de sintomas e tratamento das doenças associadas.

Pequenas atitudes realizadas todos os dias podem ter grande impacto. Tomar os medicamentos corretamente, observar alterações no peso, reconhecer a piora da falta de ar, evitar excesso de sódio e manter contato com a equipe de saúde ajudam a reduzir o risco de descompensações.

Também é importante lembrar que não existe uma única receita para todos. A melhor quantidade de líquidos, a dieta, os exercícios e os medicamentos dependem das características de cada pessoa.

Se você ou alguém da sua família recebeu o diagnóstico de insuficiência cardíaca, aproveite as consultas para esclarecer dúvidas e construir, junto à equipe de saúde, um plano de cuidados simples e possível de seguir. Quanto maior o conhecimento sobre a condição, mais fácil se torna reconhecer sinais de alerta e participar ativamente do tratamento.

Este conteúdo possui finalidade informativa e educativa e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação individualizada de um médico ou outro profissional de saúde.

Fontes de referência

O conteúdo foi elaborado com base em recomendações da American Heart Association (AHA), American College of Cardiology (ACC), Heart Failure Society of America (HFSA), European Society of Cardiology (ESC) e na Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Agende sua consulta com a Dra. Stella Mariana Giolo – Cardiologista em Franca/SP